1 de fevereiro de 2010

O Fantasma de Gabriel Tavares
No fim, todo artista é um criminoso fracassado.

  O jornalista e mal-elemento norte-americano Hunter S. Thompson uma vez escreveu que se você quiser ser doido, certifique-se de você está sendo pago pra isso. Agora eu não saberia dizer se ele estava fazendo uma piada sobre a própria insanidade ou se ele realmente tinha noção de quanta verdade existe nessa frase. Hoje em dia, não existe mais gente sã na indústria do entretenimento. As pessoas pagas pra te entreter só não estão num hospício ou debaixo de um viaduto por sua causa. E não somente pelo fato de você pagar elas com essa finalidade. 

  Eu não sou doido, mas seria forçado dizer que sou se tivesse alguém me pagando.

  Meu nome é Gabriel Tavares, e eu sou um criminoso que não deu certo. Quando eu ainda era muito novo, eu fiz todas as escolhas erradas, e ao invés de garantir uma vida decente eu decidi ser artista. Hoje eu podia viver viajando pelo mundo enquanto fujo da polícia, mas ao invés disso eu moro no lixo. Quem sabe eu até tivesse a minha própria coleção de esconderijos discretos e tranquilos, isolados das pessoas que eu odeio, mas infelizmente não é esse o caso. Eu hoje poderia ter malotes e mais malotes de dinheiro enterrados em lugares absurdos que só eu conheço, desenterrando um e mandando pra Suíça todo ano bissexto, para na terceira idade eu garantir uma poupança. Mas não, eu só tenho migalha. Fora isso, o que mais eu poderia ter? Que outras oportunidades eu joguei fora? Uma quadrilha, para fazer companhia? Fotos minhas e meu nome nos jornais, para ficar famoso pela minha arte?

  Minha vida não é fácil. Eu queria poder fazer um sumário de tudo que deu errado desde que eu nasci, ou se você preferisse desde o momento que meus pais se conheceram, mas isso seria um saco. Falar da minha vida me deixa com um gosto ruim na boca e me faz querer agredir pessoas aleatoriamente. Mas afinal, mas é só dela que eu falo, então mesmo que eu odeia eu acho que faço isso involuntariamente.

  Nos tempos que já se passaram, eu gostava de me expor. Minha vida não fazia sentido sem exposição. Mas hoje, eu me escondo. Eu moro na caçamba de uma caçamba de um caminhão no ferro-velho da polícia rodoviária de um certo estado do sudeste brasileiro. Todo primeiro sábado do mês eu viajo pro o Rio para passar uma semana lá, e voltar com comida, pilhas e de vez em quando livros, além de recarregar a bateria do meu MacBook coreano. Na verdade eu recarrego essa bateria quase todo dia num local mais próximo de casa, mas isso é outra história. Eu não vou entrar em detalhes, porque eu não quero ninguém vindo atrás de mim pra ver se é verdade. Muita gente já fez isso e eu tive que afugentar eles amigavelmente.

  Fora isso, não sei mais o que falar. Acho que vale a pena dizer que eu não pago pela água que eu consumo. Acho isso um absurdo, cobrarem por uma coisa que não são eles que fazem. Claro, eles distribuem, mas quer distribuição de água melhor do que chuva? Afinal, água é a única coisa que literalmente cai do céu, então porque é que eu vou pagar? Quando as nuvens se armam, eu deixo no quintal minha coleção de garrafas vazias. Depois que a chuva passa, eu ponho uma rolha em cada uma e trago elas pra dentro.  Segundo meus cálculos, que por sinal nunca falham, só no último ano eu economizei mais de cinco mil reais só em água. A melhor parte é que eu não tinha esse dinheiro, então escapei da cadeia.

  Qual o sentido disso, você pergunta? Fora a economia? Simples. Eu e você vivemos numa época onde não se pode confiar no seu dinheiro, mas também não se pode jogar ele fora. No meu caso, eu desde muito cedo aprendi a dar um jeito de não pagar pelas coisas que preciso e depois sair ileso. O melhor exemplo é o dos restaurantes. Eu chego num restaurante no qual eu nunca fui, ou que eu não vou a pelo menos um ano, faço uma refeição relativamente barata, e na hora de pagar a conta eu digo que não tenho dinheiro. Se for um restaurante muito chique e eles forem muito pedantes, eles normalmente insistem em chamar a polícia. Não faz diferença, só demora mais uma meia-hora no máximo. No final o trato é sempre o mesmo: eu lavo os pratos pelo resto da tarde, e na pior das hipóteses pago uma multa, mas ela nunca é mais cara que a conta.


  Dito isso, eu prefiro confiar nas minhas garrafas vazias e no meu talento pra lavar pratos do que em dinheiro, na hora de arranjar água e comida. Eu bem que poderia te ensinar meus outros truques, mas um bom mágico nunca revela seus segredos, e hoje em dia fazer as coisas sem dinheiro é uma verdadeira mágica.

  Eu não quero revelar a minha idade, porque toda vez que eu faço isso eu perco meu dia. Passo o dia inteiro olhando pro nada e pensando no tempo que eu perdi. Fora isso, ela sempre causa reações que não me agradam. Algumas pessoas dizem que é um absurdo alguém tão jovem quanto eu ter se perdido assim tão cedo. Já outros dizem que eu já passei da idade de vadiar e preciso urgentemente arranjar um emprego e uma vida própria. E também tem aqueles que concordam que eu já fiquei velho demais para voltar atrás. Francamente, são todos uns imbecis, até onde eu sei eu não sou mais um moleque e ainda não sou velho, e no final é isso que conta.
  Parecer um mártir é a coisa que eu mais odeio. Na verdade, deixa pra lá, "mártir" é uma palavra muito dramática, eu acho que termo correto seria "coitado". Enfim, isso me irrita. Eu não reclamo da minha vida, pelo contrário, tudo nela dá certo. Só me arrependo das escolhas que eu fiz quando era jovem. Larguei uma vida honesta e pacífica no ramo do crime para exercitar um dom artístico que nunca saquei que não tinha. Decidi que ia escrever, contar ao mundo a verdade que ninguém conhecia. Desmascarar conspirações, incitar os massas, instigar suspeitas... Mas era muita pretensão. Melhor esquecer.

  Hoje, minha vida é outra. Eu vivo recluso, mas gosto de saber que existe alguém pra ouvir o que eu tenho a dizer. Você não precisa de mim, da minha presença ou da idéia de me ter por perto. Mas acredite, você precisa ouvir o que eu tenho a dizer.

  A coluna Saca é assinada pelo verdadeiro Gabriel Tavares. Criativo, irônico e desenhista nas horas vagas, ele costuma passar horas pesquisando sobre cinema e escrevendo no seu blog, Cine Interzone
  Tem alguma crítica, elogio ou sugestão a fazer? Mande para o e-mail: saca.republicaon@gmail.com.

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